Uma pesquisa do New York Times em parceria com a Siena University, divulgada nesta terça-feira, mostra que 61% dos entrevistados se opõem à construção de data centers para alimentar tecnologia de IA em suas regiões. O levantamento ouviu 1 mil pessoas — uma amostra modesta, mas o número é alto o suficiente para acender um alerta em qualquer empresa que dependa de licenciamento local para erguer essas instalações.

O timing não é acidental. A oposição a projetos de data centers já saiu do campo hipotético e virou obstáculo concreto em cidades americanas. Em Filadélfia, autoridades locais chegaram a cogitar a construção de um data center em um bairro que já carrega o ônus ambiental de uma refinaria de petróleo desativada — episódio que ilustra por que a resistência tende a ser mais forte justo onde a infraestrutura pesada de tecnologia se soma a passivos ambientais preexistentes.

O pano de fundo é energético. Um estudo citado no levantamento projeta que os data centers nos Estados Unidos podem consumir, até 2035, mais gás natural do que Alemanha e Japão somados. É esse tipo de número que transforma um debate abstrato sobre "infraestrutura digital" em uma discussão muito concreta sobre conta de luz, rede elétrica local e emissões — pauta que qualquer vereador ou prefeito consegue entender e usar politicamente.

Até aqui, a corrida por capacidade computacional para treinar e rodar modelos de IA vinha sendo tratada, na prática, como problema de engenharia e de capital: quem levanta mais dinheiro e fecha contrato de energia mais rápido, constrói primeiro. A pesquisa do NYT/Siena sugere que essa equação está incompleta. Falta a variável do consentimento local, e ela não é trivial de resolver com mais investimento — é resolvida (ou não) em audiência pública, em processo de zoneamento, em eleição municipal.

Isso não significa que a expansão vá parar. Grandes provedores de nuvem e empresas de IA continuam anunciando novos data centers, e há municípios dispostos a atrair esses investimentos pelos empregos e pela arrecadação que prometem. Mas a combinação de oposição popular majoritária com casos concretos de resistência bem-sucedida muda o cálculo de risco de quem planeja esses projetos: cada novo data center passa a carregar não só um custo de energia e terreno, mas um custo político que pode se materializar em atraso, litígio ou cancelamento.

Fica em aberto até que ponto essa oposição é sobre data centers especificamente ou sobre uma desconfiança mais ampla em relação à forma como a expansão da IA vem sendo conduzida — sem debate público prévio, com decisões tomadas entre empresas e governos locais antes que a comunidade afetada saiba do que se trata. Se for o segundo caso, nenhuma explicação técnica sobre eficiência energética vai resolver o problema.