A governadora da Virgínia, Abigail Spanberger, assinou uma ordem executiva que cria uma força-tarefa sobre IA e dá às comunidades locais mais poder para desacelerar a aprovação de novos data centers no estado. A ordem também proíbe agências do executivo estadual de tomar certas ações que favoreçam a expansão irrestrita desses centros. No mesmo período, o governador da Califórnia, Gavin Newsom, assinou uma ordem executiva própria, na sexta-feira, para colocar o estado na liderança da supervisão de IA — criando um grupo de especialistas que deve recomendar medidas, entre elas um possível mecanismo obrigatório de "kill switch" para desligar modelos de fronteira.
O contexto explica a urgência. A Virgínia é hoje o maior polo de data centers do mundo, concentração que trouxe investimento pesado mas também pressão sobre rede elétrica, uso de água e ocupação de terrenos — queixas que já vinham de comunidades locais antes desta ordem. A ordem de Spanberger não bloqueia data centers, mas redistribui poder de decisão para o nível municipal, o que na prática pode significar mais audiências, mais exigências e cronogramas mais longos para projetos que antes avançavam com aprovação estadual mais direta.
A da Califórnia mira outro ponto da cadeia: não a infraestrutura física, mas o comportamento dos modelos mais avançados. Um "kill switch" obrigatório — ainda que apenas recomendado por um grupo de especialistas, não implementado — sinaliza que o estado quer mecanismos de controle direto sobre sistemas de fronteira, não só transparência ou auditoria. É uma ambição regulatória mais próxima do que a União Europeia já discute do que do vácuo atual em Washington.
O ponto comum entre as duas ordens é o que elas não são: nenhuma cria lei federal, e nenhuma tem o peso de legislação aprovada por parlamento estadual. São ordens executivas — instrumentos que dependem da permanência do governador no cargo e podem ser revertidos pelo sucessor, além de terem alcance mais limitado que uma lei. Ainda assim, sinalizam a direção que outros estados podem seguir enquanto o Congresso americano segue sem uma estrutura regulatória nacional para IA, apesar de anos de audiências e propostas que não saíram do papel.
O resultado é um mosaico: empresas que operam data centers ou treinam modelos de fronteira já precisam navegar exigências diferentes dependendo do estado, tendência que tende a se aprofundar se mais governadores seguirem o mesmo caminho. Falta responder se esse patchwork estadual vai pressionar o Congresso a finalmente legislar em nível federal — ou se vai se tornar a norma permanente, com empresas grandes o suficiente para absorver a complexidade e as menores ficando de fora.