A Wired revelou a existência de um protótipo não divulgado anteriormente pela Clearview AI, chamado InquiryIQ, que usa um modelo da xAI — a empresa por trás do Grok — para expandir o que a plataforma consegue descobrir sobre uma pessoa depois que o reconhecimento facial a identifica. Na prática, a ferramenta cruzaria dados para revelar associados, contas em redes sociais e outras informações pessoais, indo além do que o reconhecimento facial tradicional entrega sozinho: um nome e uma correspondência de imagem.

A Clearview já é conhecida por construir um dos maiores bancos de imagens faciais do mundo, coletadas de sites e redes sociais sem consentimento explícito, e por vender acesso a esse banco para forças policiais nos EUA e em outros países — um modelo de negócio que já rendeu à empresa processos e multas na Europa e restrições em diversos estados americanos. O InquiryIQ representa um passo além: não apenas identificar quem é a pessoa na foto, mas reconstruir automaticamente sua rede social e digital a partir disso, usando um modelo de linguagem para interpretar e conectar esses dados.

O uso de um modelo da xAI chama atenção por dois motivos. Primeiro, porque mostra que empresas de reconhecimento facial não precisam mais desenvolver capacidades de processamento de linguagem do zero — basta integrar um modelo de terceiros já treinado, o que acelera a criação de ferramentas de vigilância mais sofisticadas. Segundo, porque coloca a xAI, cujo modelo Grok já foi alvo de críticas por conteúdo problemático e falta de controles, no meio de uma cadeia de produtos voltados a policiamento, um setor com histórico de erros de identificação que afetam desproporcionalmente pessoas negras e outras minorias.

A reportagem não deixa claro se o InquiryIQ já está em uso operacional por alguma agência policial ou se permanece em fase de testes internos da Clearview. Também não há confirmação pública da xAI sobre os termos dessa parceria ou sobre se a empresa sabia o uso específico que seria dado ao seu modelo. Essa falta de clareza é, em si, parte do problema: ferramentas de vigilância baseadas em IA generativa frequentemente chegam ao mercado — ou às mãos da polícia — antes que exista qualquer debate público sobre seus limites.

Fica em aberto que tipo de supervisão, se alguma, avalia produtos como esse antes de chegarem a um distintivo. Também não se sabe se a xAI impõe alguma restrição contratual sobre como seu modelo pode ser usado em contextos de vigilância, ou se, como em boa parte do setor, a política é vender a API e deixar o uso final por conta do cliente.